Estudo de casos

Moda

A abordagem ecológica na indústria da moda é imensa e vai além do uso de matérias-primas. Os processos utilizando químicos no tingimento e no tratamento dos têxteis são responsáveis por cerca de 20% da poluição das águas, citando apenas um dos impactos negativos. Mas não basta acusar a indústria da moda, uma vez que todos nós somos responsáveis, a partir do momento em que demandamos mais e mais produtos. Sim, isso mesmo, quando tomamos a decisão de comprar mais uma camisa, vestido ou mais uma calça jeans, que talvez nem estejamos precisando, provocamos a roda da economia que começa a girar para alguém lucrar, mas, infelizmente, a natureza ficará com a conta negativa. Consumir menos e pensar melhor as nossas escolhas é a mudança de mindset que precisamos fazer com relação à moda. As práticas de produção e de consumo na Economia Circular devem envolver a utilização de roupas por mais tempo, bem como sua reciclagem e reutilização com maior frequência. Só assim conseguiremos diminuir o desperdício e os prejuízos que esta indústria causa ao meio ambiente. Mas algumas empresas estão dando o exemplo, como a startup Revoada, que atua no mundo da moda com um modelo conhecido como ‘trash-to-cash’, e as lojas de varejo Renner e C&A

Revoada

A Revoada vem conseguindo ‘fazer dinheiro do lixo’ com sua nova forma de pensar o seu negócio. Ela conseguiu capturar o valor não percebido pelo mercado – a empresa oferece produtos feitos a partir de resíduos de câmaras de pneus e capas de guarda-chuvas – e vem conseguindo gerar impacto positivo para a natureza e a sociedade. Câmara de pneu e tecidos de nylon de guarda-chuvas descartados são as matérias-primas da empresa: o primeiro material substitui o couro e se transforma em bolsas, mochilas, malas de viagem, pochetes, carteiras, entre outros produtos; o segundo, em coloridas jaquetas, agasalhos e sacolas com design moderno. Cooperativas de costureiras, borracharias, centros de triagem e recicladores são parceiros da Revoada. As coleções são divulgadas pelo site da empresa e as vendas são feitas por lotes, não gerando sobras em estoque, resíduos e despesas com logística. É o oposto do movimento Fast Fashion: não gera excesso de produção, melhora as condições sociais e utiliza resíduos como matéria prima.

Construção Civil

A construção civil caminha em direção à Economia Circular. Há diversas ações que vão nesse sentido. Mas, da mesma forma que ocorre com a indústria têxtil, a da construção também possui modelo econômico linear e enfrenta dificuldades para se afastar dele. Seu maior desafio é desenvolver construções que permitam reutilizar os seus materiais em novos ciclos, com a mesma qualidade ou superior – característica da reciclagem do tipo upcycle.

De acordo com pesquisa da Associação Brasileira para a Reciclagem de Resíduos de Construção Civil e Demolição (Abrecon), os resíduos de construções e demolições representam até 70% dos rejeitos sólidos produzidos pelas cidades brasileiras médias e grandes(*); sem contar que por ano são produzidos quatro bilhões de toneladas de cimento, o que corresponde à 8% das emissões globais de CO2, segundo relatório da Chatham House. Essa predominância do entulho evidencia a dificuldade enfrentada pelo setor de evitar o fim da vida útil dos materiais. Por entulho, o dicionário Aurélio define como “materiais inúteis resultantes da demolição”. Há de fato muita coisa que não tem mais utilidade porque não foi pensada desde sua concepção para que os materiais continuassem empregados em ciclos de mesma qualidade ou superior.

A Economia Circular considera que os edifícios sejam bancos de materiais. Sendo assim, cada parte de uma construção tem seu valor e está inserida em um ciclo. O design circular é aplicado ao projeto de edifícios e áreas construídas, devendo se voltar para o processo de concepção e montagem das partes que os constituem, ou seja, de suas paredes, colunas, lajes, telhados, fundações, pavimentos, tubulações, divisórias, mobiliário etc.

(*) Disponível em: http://abrecon.org.br/pesquisa_setorial/, acesso em 16 de setembro de 2020.

Embalagens

A Economia Circular busca eliminar o conceito de lixo. Mas, para que isso aconteça, os materiais devem ser desenhados para os próximos ciclos. E, quando falamos de embalagens para a Economia Circular, as possibilidades de soluções para manter as embalagens e os seus materiais circulando são bem diversas, variando muito de caso a caso – dependendo do produto, do mercado, da região, dos materiais, da infraestrutura disponível e com relação à sua toxicidade, qualidade, funcionalidade e circularidade. 

Esta pesquisa contemplou casos de empresas que estão pensando na pesquisa e no projeto de suas embalagens, levando evidentemente em consideração o cumprimento de suas funções e normativas existentes. Além disso, outro atributo que estas empresas estão considerando são opções que permitam a redução de desperdícios e perdas de produtos, bem como maximizando as possibilidades de aproveitamento de suas embalagens pós-consumo.

O ideal é avaliar a quantidade de insumos necessários para produção de embalagens, os programas disponíveis de logística reversa para embalagens, a utilização de matéria-prima reciclada na produção de embalagens e maximizar o uso de embalagens retornáveis. 

A análise do ciclo de vida dos produtos e embalagens deve estar sempre presente no setor de P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) das empresas, priorizando elementos 100% reaproveitáveis, que possam e devam retornar ao ciclo industrial, adotando um design mais sustentável.

A utilização de novos materiais na composição das embalagens, que auferem redução no peso e volume, traz ganhos ambientais com a menor utilização de matérias primas, na redução da geração de resíduos e também contribuem para uma menor pegada ecológica. As emissões de carbono são reduzidas e, com isso, corroboram também para ações de mitigação no âmbito das mudanças climáticas, promovendo uma “pegada de carbono” ainda menor. 

Vamos conhecer alguns exemplos de empresas que consideraram todos esses pontos pra cocriar novas embalagens.

Alimentos

A indústria alimentícia tem um papel-chave para a evolução da Economia Linear para a Economia Circular. É um dos temas mais trabalhados hoje, no mundo, nas áreas de agricultura, agronegócios e alimentos, por sua contribuição com a sustentabilidade econômica, ambiental e de pessoas.

Nessa visão, ao invés de degradar o meio ambiente, as pessoas passam a ter acesso a alimentos mais saudáveis e nutritivos. A Fundação Ellen MacArthur acredita – e concordo – que os municípios podem ter um papel importante no desencadeamento de uma transição para um sistema alimentar fundamentalmente diferente em que vamos além de simplesmente reduzir resíduos de alimentos que podem ser evitados, eliminando o conceito de “resíduo” completamente. 

Políticas públicas municipais podem repensar o destino da maior parte dos alimentos e garantir que coprodutos inevitáveis sejam usados em seu mais alto valor, transformando-os em novos produtos que vão desde fertilizantes orgânicos a biomateriais, medicamentos e bioenergia. “Em vez de um destino final para os alimentos, as cidades podem se tornar centros de transformação de coprodutos alimentícios em uma gama de materiais valiosos, impulsionando novas fontes de receita em uma bioeconomia florescente” (*)

Os conceitos de upcycling, Economia Circular do alimento e sistemas alimentares sustentáveis ainda são muito novos, pouco explorados e pouco disseminados no Brasil, mas empresas como a Coca Cola e a Notpla já largaram na frente.

(*) Disponível em: https://bit.ly/35NKuQf , acesso em 16 de setembro de 2020.

Mobilidade e transporte

Para a Economia Circular, a mobilidade urbana é outro tema que precisa do apoio e da parceria de políticas públicas municipais para obter resultados mais eficientes. De acordo com o estudo da Fundação Ellen MacArthur, os benefícios podem ser alcançados mudando a forma de planejar, projetar, financiar, criar, usar e reaproveitar os sistemas urbanos.

Essa visão de Cidade Circular pode ajudar a endereçar prioridades urgentes para as áreas de moradia, mobilidade e desenvolvimento econômico das prefeituras. Ela está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030, incluindo a redução das emissões de gases do efeito estufa e a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.

A mudança do atual modelo de transportes para um padrão com menos emissão de CO2 deve envolver um conceito mais amplo – o da Economia Circular. A indústria automotiva já investe alto para disponibilizar, inclusive no Brasil, várias tecnologias para fazer essa transição nos transportes, substituindo a fonte fóssil por alternativas renováveis e limpas que vão dos biocombustíveis à eletrificação. Como parte do problema – o setor de transportes é responsável por 14% das emissões de gases de efeito estufa – está em busca de soluções.

Por outro lado, tecnologias associadas à Internet das Coisas, também podem oferecer soluções para alguns dos principais problemas nacionais nas áreas de saúde, mobilidade urbana e eficiência energética. Mas aqui, vamos explorar cases da indústria automobilística e empresas áreas para entender como esse nicho de mercado está pensando circularmente.